Polaroid retorna ao Brasil com exposição de arte
- Revista Analógica
- 16 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Curadora comenta sobre a exposição, no Instituto ViaFoto, e diz que a “comunidade analógica (brasileira) existe há muito tempo” [entrevista na íntegra ao final]
A Polaroid retornou ao Brasil, na última quinta-feira (11/12/2025), realizando uma exposição de arte contemporânea, sendo a 1ª exposição da Polaroid no Brasil - quiçá da América Latina -, realizada pela Runner Filmes e idealizada e curada por Gabi Lisboa, e segue aberta ao público até o dia 09 de janeiro de 2026.
A escolha por uma exposição dialoga diretamente com a realidade brasileira. Hoje, o Brasil é a segunda nação mais intoxicada por telas digitais, com média diária de 9h13, atrás apenas da África do Sul. Em 2018, quando a Polaroid do Brasil LTDA deixou de operar, o país já ocupava posição semelhante, com cerca de 9h29 por dia, atrás das Filipinas. A dependência digital, como se vê, é uma problemática contemporânea.
Para a curadora, a proposta da Polaroid “traz quase um manifesto visual pedindo que a gente recupere presença, intenção e verdade, três fundamentos que o analógico sempre preservou e o digital diluiu. Eles defendem muito a vida fora da tela”. É “algo que muita gente sente mas ainda não sabe colocar em palavras: estamos exaustos do digital”.

A marca aposta na materialidade para promover a contemplação e desaceleração e, assim, reaproximar-se do público brasileiro. “As pessoas param, chegam perto, comentam a textura, as cores” das polaroides, que são “únicas, definitivas e físicas”, como diz a curadora Gabi Lisboa. “Quando uma exposição faz alguém desacelerar hoje em dia, ela já ganhou.” Diante desse cenário, Gabi Lisboa, após dois anos em diálogo com a Polaroid, com direito a visita ao escritório da marca em Amsterdã, pensou-se em uma curadoria que mostrasse a realidade brasileira, por meio de uma "comunidade analógica" brasileira que “existe há muito tempo”. O objetivo foi mostrar que o “Brasil produz olhares profundamente distintos, e cada fotógrafo traz uma estética que nasce da sua própria vivência, da sua própria relação com o país, da sua própria história visual”, sem uma “uma estética nacional padronizada” mas unidos pelo “fato de serem brasileiros que se apaixonaram pela fotografia dentro da sua própria nação”.
Como técnica expográfica, há traduções humorísticas para o português dos dizeres anglófonos inscritos nos cartuchos da Polaroid, além de utilizá-los como suporte para ficha técnica das obras de arte, que, aliás, foram ampliadas e impressas em fine art, sem perder as bordas brancas do formato polaroid. São mais de 500 fotos, de 18 artistas brasileiras.


ENTREVISTA COMPLETA COM GABI LISBOA (CURADORA DA EXPOSIÇÃO) 1. Como surgiu a ideia de fazer a exposição da Polaroid? Como se deu o contato com a Polaroid para fazer a exposição? Eles receberam bem a ideia?
GABI LISBOA: Ha alguns anos eu tinha vontade de fazer uma expo so de polaroids impressas em tamanho grande, mas nunca tinha surgido a possibilidade de isso se concretizar, ate a metade desse ano quando o Sthefano veio me contar sobre a chegada da marca no Brasil e começamos a falar sobre fazer algo especial pra essa chegada. Meu contato com a Polaroid veio antes dessa chegada, em 2023 fui entrevistada por eles por e-mail e em 2024 eu fui pra Amsterdam e conheci o escritorio deles, foi super legal ver de perto o processo e dia a dia da empresa.
Quando falamos que estávamos pensando em fazer algo, mandamos o projeto todo certinho e eles acharam super interessante, mandaram todos os guidelines e assets pra gente poder usar livremente aqui no Brasil.
2. Por que a escolha do Instituto ViaFoto para a 1ª exposição da Polaroid no Brasil? Qual feedback que você tem recebido dos primeiros dias de exposição?O Instituto ViaFoto apareceu na minha conversa com o Sthefano pelo fato de uma proximidade do próprio com uma das pessoas que gerem o espaço, e para alem disso é um lugar de formação, de pensamento e de preservação da fotografia como linguagem. Para uma primeira exposição da Polaroid no Brasil, fez sentido estar em um espaço que respeita o tempo da imagem, o processo e a materialidade da fotografia.
Nos primeiros dias, o feedback tem sido muito bonito e muito físico. As pessoas param, chegam perto, comentam a textura, as cores, lembram de histórias pessoais, o que mais pegou as pessoas foi o painel de memórias. E quando uma exposição faz alguém desacelerar hoje em dia, ela já ganhou.
3. Qual a linha curatorial que você seguiu para esta exposição? Por que "Wish you were here in Brazil"?
GABI LISBOA: Meu objetivo era mostrar que nossa comunidade analógica existe, e há muito tempo. Entao busquei fotografos que tinham relação com a marca ja ha um tempo e usavam da ferramenta como linguagem em seus trabalhos e registros pessoais.
4. Como você entende a Polaroid enquanto linguagem artística?
GABI LISBOA: Para mim, a Polaroid não é uma linguagem com regras próprias, com um tempo próprio e, principalmente, com uma verdade própria. Ela me obriga a desacelerar, a escolher antes de clicar, a confiar no instante. É uma fotografia onde o erro vira estética, onde o acaso participa como coautor, onde a luz e a química tem vontade própria. Ela é quase nunca precisa, e eu aprendi a admirar essa falta de perfeccionismo que ela entrega.
5. As obras serão comercializadas?
GABI LISBOA: Não, as imagens ampliadas serão dadas de recordação para os respectivos autores.
6. O que a Polaroid diz sobre a imagem analógica num mundo de imagens digitais?
GABI LISBOA: A Polaroid, hoje, fala algo que muita gente sente mas ainda não sabe colocar em palavras: estamos exaustos do digital. A ultima campanha deles “The Camera for an Analog Life” deixa isso claro ao confrontar diretamente o reinado das telas, dos feeds infinitos e da lógica algorítmica que dita a forma como registramos nossas vidas, e claro, o pavor do IA. Ela traz quase um manifesto visual pedindo que a gente recupere presença, intenção e verdade, três fundamentos que o analógico sempre preservou e o digital diluiu. Eles defendem muito a vida fora da tela.
7. No universo da fotografia analógica, a Polaroid difere-se por ser uma fotografia instantânea, em que, ao clicar no botão de fotografar, a máquina, em ato contínuo, entrega a fotografia revelada nas mãos da fotógrafa. Qual a diferença entre a instantaneidade analógica e a instantaneidade digital?
GABI LISBOA: A instantaneidade analógica entrega uma imagem tátil, mas também entrega um tempo. Existe o gesto, a espera, a revelação acontecendo na sua mão. Mesmo sendo “instantânea”, a Polaroid exige presença, atenção e responsabilidade, você não pode apagar, refazer infinitamente ou escolher depois, além de ter cuidado até com a revelação da imagem. Aquela imagem é única, definitiva e física.
Eu enxergo a instantaneidade digital como imediata, mas descartável. Ela acelera o olhar, estimula o excesso e dilui o valor do instante. Você fotografa para ver depois, ou para esquecer logo em seguida.
Mas no final é tudo sobre intenção com o uso da ferramenta, não posso dizer que todas as pessoas que escolhem o analógico são responsáveis com o tempo e processo, assim como nem todas as que usam suas câmeras digitais, as usam sem pensar.
8. Na sua visão de curadora, você notou uma estética brasileira nas fotos expostas?
GABI LISBOA: Na verdade, o que mais me chamou atenção foi justamente o oposto da ideia de uma “estética brasileira” homogênea. O que vejo é que o Brasil produz olhares profundamente distintos, e cada fotógrafo traz uma estética que nasce da sua própria vivência, da sua própria relação com o país, da sua própria história visual. As fotos não seguem um mesmo estilo, nem uma mesma paleta, nem uma mesma linguagem. E eu gosto disso. Acho que revela muito sobre quem somos: múltiplos, híbridos, fragmentados, inventivos. O que une todos esses trabalhos não é uma estética nacional padronizada, mas o fato de serem brasileiros que se apaixonaram pela fotografia dentro da sua própria nação.
9. Se pudesse sonhar com uma segunda edição, que caminho gostaria de explorar?
GABI LISBOA: Se eu pudesse imaginar uma segunda edição, eu gostaria de aprofundar a relação entre fotografia instantânea e memória.
Queria convidar artistas a olhar para suas próprias histórias, familiares, afetivas, geográficas, e transformar isso em narrativa visual. Não seria apenas resgatar memórias antigas, mas entender como elas continuam atuando no presente, como moldam nosso olhar. Imagino uma edição em que cada participante traz um fragmento da sua raiz: uma lembrança de infância, um lugar que formou sua sensibilidade, um objeto herdado, um afeto que marcou. E, a partir disso, criar um mosaico de memórias brasileiras, íntimas, diversas e não idealizadas.
INFORMAÇÕES DO EVENTO:
Evento: 1ª exposição da Polaroid no Brasil (Wish you were here in Brazil)
Local: Instituto ViaFoto (R. Fernão Dias, 640 - Pinheiros, São Paulo - SP)
Data: 11 de dezembro de 2025 - 09 de janeiro de 2026 (terça a domingo)
Entrada: GRATUITA
Mais informações: @institutoviafoto (Instagram)




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