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Os orelhões estão sob risco de extinção!

  • Foto do escritor: Alexandre do Carmo
    Alexandre do Carmo
  • 1 de fev.
  • 9 min de leitura

O que isso significa para o Brasil? Entrevistamos especialistas para entender.


Foto: Bixa Analógica / Valéria Barcellos no orelhão na Av. Paulista

Os telefones públicos estão sob risco de extinção, devido ao argumento de que a popularização dos telefones privados tornou-os desnecessários.


E, de fato, os celulares facilitaram muito a vida humana contemporânea. Não precisamos mais enfrentar filas para conversar com ninguém. Em um clique pode-se fazer uma videochamada para um parente que mora na Europa. Andamos com supercomputadores em nossos bolsos.


É inegável os avanços que os celulares trouxeram em termos de telecomunicação. A tecnologia digital foi um avanço para uma sociedade que ansiava por se conectar e se globalizar. Hoje vivemos em um mundo globalizado em razão dela.


E sob esses dizeres que os contratos de concessão da Anatel com as operadoras telefônicas não serão renovados em 2026. As quais atuam, hoje, sob o regime jurídico das autorizações, em razão da Lei nº 13.879/2019, aprovada no governo Bolsonaro.


Traduzindo: o Estado brasileiro deixou de tratar a telefonia em geral como um serviço público essencial, e passou a considerá-la um mero serviço privado, sem a necessidade dos rígidos contratos de concessão que, dentre várias regras, exigiam pontos físicos de comunicação.


Isso significa que, na prática, as empresas de telefonia já não têm mais a obrigação legal de manter uma infraestrutura pública universal de telecomunicação, cabendo a cada cidadão acessar a comunicação por meio de serviços contratados individualmente. São mudanças ideológicas de como se enxerga a telecomunicação.


É uma "parte da virada estrutural da telecomunicação que desloca o acesso público e universal ao telefone para o acesso privatizado, individual e mediado por plataformas", como afirma Malfeitona, a qual complementa que há uma exigência de "responsabilidade de cada um ter e manter aparelho, plano, energia (carregar ele!) e letramento digital".


A mestra em Comunicação, também, aponta formas de modernizar os pontos físicos de comunicação, com "pontos públicos com wifi gratuito, aberto (sem necessidade de coleta de dados para acessar), pontos de recarga de celular, telefones/telas públicas que conectem diretamente o usuário a serviços públicos". No entanto, até agora pensa-se em apenas eliminar os orelhões das ruas brasileiras.


Situação que na visão de Alexandre do Carmo é "ilegal", pois na visão do jurista estaria reduzindo "o direito de acesso a telecomunicação a posse de um celular". O qual é complementado por Enzo Fiori sobre os riscos de tal redução, pois "onde só existe o privado não existe espaço para o comum.


Nos dizeres de Bianca Ramires "vivemos hiperconectados, mas cada vez menos acessíveis", afirma, a especialista em experiência do usuário (UX), ao afirmar que o orelhão com todas as suas limitações "funciona sem login, sem aplicativo, sem bateria, sem exclusão. É uma tecnologia pensada para o comum, não para o indivíduo isolado". Além de ser essencial para situações de emergências, como bem lembra Harrisson Full, o laboratorista que prestou serviços para o filme "O Agente Secreto", filme brasileiro que tem o orelhão como foto oficial de divulgação da produção cinematográfica.

E o curioso é que: ao mesmo tempo que se eliminam orelhões, o equipamento urbano é símbolo do filme "O Agente Secreto". Filme, com 4 indicações ao Oscar, cuja temática é sobre como o Brasil trata suas memórias.


Juh Almeida afirma ser "uma contradição muito sintomática do nosso tempo" a diretora de filmes e mestranda em Meios e Processos Audiovisuais (pela USP) também afirma que vê o "gesto como político", pois devolve "visibilidade às histórias que o progresso tenta enterrar". Ao mostrar que o orelhão "é um fantasma do que fomos e um alerta sobre o que estamos dispostos a perder, ou não", conclui Almeida.


É um sintoma de um país "memoricida", nos dizeres da designer gráfica Paula Cruz.


Um país que não vê o potencial turístico de transformar os orelhões em soft power nacional como "as cabines telefônicas de Londres (que atraem turistas do mundo todo)" como observa Erikson Veríssimo, o qual vê os orelhões como "ícones" responsáveis por manter "viva a alma da cidade e evita que ela se torne genérica e fria", finaliza o artista visual e guia de turismo.


Parafraseando a diretora de filmes: como encararemos nossos fantasmas? E o quanto "estamos dispostos a perder, ou não"? Essas são as perguntas essenciais para as memórias da nação brasileira. OPINIÕES DE ESPECIALISTAS NA ÍNTEGRA

Malfeitona - Artista, Comunicadora e Mestra em comunicação e tecnologia (UFBA)

Revista Analógica: O que significa o fim dos orelhões para a telecomunicação brasileira? Você vê potenciais comunicacionais nos telefones públicos e/ou alternativas de adequar a sua função social aos tempos atuais? Ou orelhões são desnecessários após a popularização dos telefones privados (celulares)? Resposta: O fim dos orelhões no Brasil é parte da virada estrutural da telecomunicação que desloca o acesso público e universal ao telefone para o acesso privatizado, individual e mediado por plataformas, marcando a passagem de uma telecomunicação territorializada (ancorada no espaço urbano) para uma telecomunicação plataformizada. 

Com o fim dos orelhões, a comunicação deixa de ser pensada como serviço público e passa a depender da capacidade individual de contratar, manter e atualizar um dispositivo privado. Antes, o Estado (via concessões) garantia pontos físicos de comunicação.

Apesar do celular democratizar e expandir o território de abrangência da comunicação por voz, hoje é responsabilidade de cada um ter e manter aparelho, plano, energia (carregar ele!) e letramento digital. Quem não consegue atender a um desses fatores tem sua comunicação prejudicada/interrompida e passa a ser visto como exceção ou problema individual, e não como falha estrutural de política pública. 


Ainda, em tempos onde se discute privacidade, vigilância digital e extração de dados, o orelhão não exigia login, CPF, contrato, biometria ou rastreamento contínuo. 

O orelhão continua existindo como um artefato cultural e marco urbano:  serve de ponto de encontro, referência espacial, abrigo para chuva e memória. Em muitos lugares os orelhões remanescentes se tornaram obras de arte urbana através da interferência artística (permitidas ou não). 

Para adequar a função social dos orelhões aos tempos atuais podemos pensar em uma infra estrutura pública de comunicação: pontos públicos com wifi gratuito, aberto (sem necessidade de coleta de dados para acessar), pontos de recarga de celular (energia como direito ao acesso à comunicação), telefones/telas públicas que conectem diretamente o usuário a serviços públicos. O telefone público fixo também pode ser pensado como alternativa de comunicação em caso de emergências, desastres climáticos e guerras tecnológicas.  _______________________________________________________________________ Bianca Ramires - Especialista em Experiência do Usuário (UX) e Doutora em Letras Revista Analógica: Em sua visão de UX, como você acha que as marcas e os governos poderiam agir frente ao sucesso internacional de "O Agente Secreto"? Considerando que o orelhão ganhou destaque no filme a ponto de ser a foto do poster de divulgação oficial? Resposta: Eu olho pra isso menos como nostalgia e mais como sintoma.


O orelhão é visto como obsoleto e, talvez, por isso tenha retornado com tanto simbolismo. No filme, ele não aparece apenas como um objeto antigo, mas como uma ideia de acesso: público, coletivo, disponível, mesmo quando tudo falha.


Do ponto de vista da experiência do usuário, o sucesso de “O Agente Secreto” revela algo importante que marcas e governos deveriam ler como um alerta: nem toda inovação precisa substituir. Muitas vezes, ela precisa garantir presença e acessibilidade.


Além de, sendo uma ideia bem trabalhada, pode ser objeto de atração turística, como já acontece em Londres, por exemplo.


O telefone público, analógico, limitado, imperfeito, está lá. Funciona sem login, sem aplicativo, sem bateria, sem exclusão. É uma tecnologia pensada para o comum, não para o indivíduo isolado.


Talvez o impacto do orelhão hoje venha justamente do contraste com o presente: vivemos hiperconectados, mas cada vez menos acessíveis.


Mais do que resgatar o objeto, o convite está em resgatar o princípio que o norteia.


Projetar experiências que não partam só da eficiência, mas da dignidade do uso, do acesso real, da autonomia das pessoas e que não se orientem pela velocidade, mas pelo direito ao acesso e pela permanência no espaço público, à disposição, especialmente, de quem fica à margem quando tudo depende de tecnologia individual.


O orelhão no pôster não fala de passado. Ele pergunta, silenciosamente, que tipo de futuro estamos desenhando e dispostos a sustentar. ________________________________________________________________________ Paula Cruz - Design Gráfica (UFRJ) e Mestra (PUC/RIO) Revista Analógica: O que o fim dos orelhões significa para o futuro do design brasileiro? Resposta: Num sentido mais pragmático, o fim dos orelhões marca de vez o fim de uma era da telecomunicação: um tempo pré internet, anterior à popularização dos smartphones, da hegemonia das redes sociais. Isso significa uma outra noção de tempo, e uma outra relação da população com design. Explico: é impossível não conectar à história do design do orelhão aos impressos que acompanhavam seu entorno: os populares os "santinhos" de propagandas de empreendedores nada convencionais, desde trabalhadoras sexuais e pixadores à ciganas e benzedeiras, além de outros trabalhos considerados informais. O orelhão estava ligado ao ambiente da rua, dos saberes populares e do design que não é refém das corporações. Não só o design em si do orelhão é icônico, como ele também se tornou um aparato de publicidade disruptiva, de anúncios do dia-a-dia.

É curioso notar como uma das cenas mais icôncias de "O Agente Secreto", grande hit do cinema brasileiro, é o protagonista da trama, interpretado por  Wagner Moura, ligando de um orelhão em meio à uma perseguição cheia de ação e suspense. Num filme marcado por memória e resistência à gentrificação, o orelhão se torna o símbolo de resistência de uma memória gráfica das cidades. Um lamento por uma fase da modernidade que já se foi. Infelizmente, a tendência de se viver num país memoricida é esquecer a origem de suas próprias ruínas. Porém, acredito que o futuro do design brasileiro seja cada vez mais olhando pra si, lembrando de si mesmo, e apontando novos caminhos. Um caminho que a memória visual e a resistência andam lado a lado. ______________________________________________________________________ Juh Almeida - diretora de filmes, artista visual, arte educadora e mestranda em Meios e Processos Audiovisuais (USP) Revista Analógica: Na sua visão de diretora de cinema (e mestranda em cinema), como você encara o fato de o orelhão ser um símbolo e foto de divulgação do filme "O Agente Secreto", mas ao mesmo tempo estar sendo eliminado das ruas brasileiras? Resposta: Eu encaro o orelhão como um corpo de memória, como um objeto urbano que carrega um vestígio de uma forma de comunicação coletiva, pública e atravessada pela rua, assim como o cinema também é. O fato dele ser usado como imagem de divulgação de O Agente Secreto ao mesmo tempo em que está sendo apagado das ruas brasileiras revela uma contradição muito sintomática do nosso tempo, hoje vivemos um regime de hiperconectividade em que quase tudo é rastreável e monitorado. Para mim, isso diz muito sobre como o cinema pode operar como arquivo e resistência. Ao colocar o orelhão no centro da imagem o filme convoca uma nostalgia, mas tensiona a ideia de progresso, lembrando que o “novo” quase sempre se constrói sobre apagamentos materiais, afetivos e históricos. O orelhão vira então, um símbolo de resistência e talvez de segredo, um lugar onde a cidade falava sem deixar rastro, e onde o cinema pode operar como contra-arquivo, devolvendo visibilidade às histórias que o progresso tenta enterrar. Como alguém que defende a fotografia analógica e a preservação da memória, eu vejo esse gesto como político, o cinema pode reinscrever no imaginário coletivo objetos, práticas e histórias que estão sendo silenciadas no espaço urbano. O orelhão, nesse sentido, vira um fantasma do que fomos e um alerta sobre o que estamos dispostos a perder, ou não. ______________________________________________________________________ Harrison Full - laboratorista fundador do Lab Pura Arte (revelou para "O Agente Secreto") Revista Analógica: O que tu acha do fim dos orelhões? Resposta: acredito que orelhao ainda e de extrema importancia nos dias atuais, mesmo quase que toda população tendo acesso a smartphone e internet, os orelhoes devem ser estatal para emergencias, caso tenhamos nossos pertences roubados/ furtados e precisarmos de ajuda, como tambem ter em pontos estrategios em estradas e rodovias para as mesmas situações de emergencias. Remover, vai na contra mao, da população ter um meio de contato, com entes e autoridades de segurança e socorro. ______________________________________________________________________ Victor Jucá - Fotógrafo Still de "O Agente Secreto" Revista Analógica: Os orelhões são muito marcantes nos stills de "O Agente Secreto", e uma dessas imagens acabou virando a foto de capa do filme. Conta para a gente!


Como foi o seu processo fotográfico e por que o orelhão? O que esse equipamento urbano significa para você? E como você vê a retirada dos telefones públicos das ruas brasileiras? Resposta: A icônica foto de Wagner naquele orelhão surgiu de uma oportunidade que n poderia deixar passar. No momento, Wagner e Kleber conversavam próximo ao orelhão enquanto equipe de câmera se preparava. Eu brinquei dizendo a Wagner que o telefone tava tocando pra ele. Ele prontamente foi la, atendeu e brincou com pelo menos 5 olhares diferentes em menos de 10s. Tenho pelo menos umas 5 versões diferentes pra essa imagem.


O orelhão fez parte da minha vida desde que me entendo por gente. É um item lindo totalmente inserido no design urbano do Brasil e que infelizmente se tornou obsoleto. Obsoletado e substituído por tecnologias mais ~urgentes~. Eu confesso que sinto falta da calma que as coisas carregavam para acontecer.  ______________________________________________________________________ Erikson Veríssimo - guia de turismo e artista visual (UFRJ) Revista Analógica: Como você enxerga o fim dos orelhões da sua visão como artista (e que também é guia de turismo)? Resposta: Uma cidade é constituída de várias camadas temporais, onde habita sua identidade visual e afetiva. Os orelhões são como as cabines telefônicas de Londres (que atraem turistas do mundo todo). Preservar esses ícones mantém viva a alma da cidade e evita que ela se torne genérica e fria.


 
 
 

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