NÃO JOGUE FORA SEU NEGATIVO! VOCÊ VAI SE ARREPENDER!
- Alexandre do Carmo

- 16 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de jul.
Em algum momento você vai perder sua foto analógica digitalizada, e não vai encontrar o material original dela (que duraria 500 anos se você armazenasse corretamente)

Com o avanço da realidade digital e as suas redes sociais, a memória digital passou a ter maior visibilidade em detrimento da memória material, a ponto da Geração Z se interessar por fotografia analógica, ao mesmo tempo que descarta os negativos fotográficos que dão origem para as fotos digitalizadas, segundo matéria do Estadão [1]. Athos Souza, dono de um laboratório de São Paulo, do FFV, afirmou naquela reportagem que “90% da galera quer, de fato, apenas as fotos digitais para espalhar nas redes sociais. Fenômeno que a Doutora Laís Akemi Margadona (Unesp) nomeia como “laboratórios híbridos” [2], empresas que revelam negativos cujo objetivo é a digitalizaçao, e, ao final, serem postados nas redes sociais.
Tal paradigma também se repete na Arquivologia, em que, projetos de digitalização das últimas duas décadas, ganharam mais visibilidade a fim de democratizar o acesso de acervos históricos pelo mundo cibernético. Justamente porque a digitalização tem seu mérito pelo fato de criar “soluções de reprodução e difusão das imagens de arquivos”, como diz Elson Rabelo, Professor de História da UNIVASF.
Mas Rabelo complementa que a digitalização também “criou novos problemas que tornariam precipitado o mero descarte de negativos”. A própria Unesco alertou, em 2023, que “os custos de preservação da informação digital não devem ser subestimados - estes excedem em muito os custos de preservação registados até à data com cinco milénios de documentos tradicionais” [3].
A experiência da própria internet demonstra essa fragilidade: 25% das páginas publicadas entre 2013 e 2023 já haviam desaparecido em 2023, segundo levantamento da PEW RESEARCH CENTER. [4] Uma vez que servidores e discos rígidos falham, URLs quebram, e a nuvem é basicamente um aluguel no terreno de terceiros (no caso, big techs). Isto acontece porque, segundo Elson, materiais digitalizados “exigem capacidade institucional e material de armazenamento, adaptabilidade às circunstâncias ambientais, às demandas de consumo de energia e às constantes mudanças tecnológicas que não raro tornam equipamentos obsoletos e dificultam o acesso”, completa o Consultor para Acondicionamento e Preservação do Zumvi Arquivo Afro-Fotográfico. E ao considerar que negativos fotográficos tem expectativa de vida de 500 anos, de acordo com a ISO 18911 (2010), a preservação ganha especial relevância, ainda mais pelo fato que “correspondem aos gestos de captura que deram origem às imagens fotográficas e que, portanto, testemunham tanto a trajetória das pessoas que fotografam”, na visão de Elson Rabelo. Portanto, a digitalização pode ser uma importante estratégia para a difusão das imagens no mundo cibernético. Porém, não pode ser um substituto da preservação, já que são cópias digitais (perenes) para ampliação de acesso à pesquisa dos negativos originais (longevos). Assim, Rabelo defende que “a preservação dos negativos fotográficos, atualmente, pode ser considerada até mais importante do que sua digitalização” para evitar a perda definitiva das imagens originais. Do mesmo modo que a memória analógica tem seus desafios, a memória digital não é eterna! Apagões digitais por guerras e decisões corporativas podem sumir com trilhões de arquivos. O negativo, por seu turno, pode durar até 500 anos com o armazenamento arquivístico adequado, segundo a ISO 18911:2010* [5].
Vale lembrar que muitas descobertas feitas por digitalizações contemporâneas não ocorreram porque o digital era superior ao analógico, mas porque os negativos analógicos preservaram informação latente por décadas, aguardando tecnologias futuras capazes de extraí-la. E muitas das cópias digitais continuam dependendo dos negativos para futuras restaurações em qualidade superior (vide os casos de remasterização cinematográficas ou descobertas imagéticas futuras).
Portanto, políticas híbridas de preservação e digitalização são essenciais para evitar a perda definitiva das imagens originais. É preciso que seja fácil conseguir financiamento para digitalizar 100 mil negativos. Ao mesmo também deve ser facilitado obter recursos para climatizar uma reserva técnica e conservar esses mesmos negativos por mais de 100 anos, sem perda de informação imagética.
Foi por este motivo que a Bixa Analógica realizou a exposição “Analógicas: Eternizar o Orgulho” (2025), em que debateu-se a película analógica como método de preservação para arquivos LGBTQIA+ [6]. Tal mostra foi tema de TCC de Arquivologia, de Ana Paula Silva de Souza [7], e matéria da revista de moda mais antiga em atividade (Harper’s Bazaar) [8]. Afinal, “quem garante a eternidade de suas fotos digitais? Quem garante que nunca as apagarão por desacordos políticos com o dono da nuvem (e seus termos de uso)? Preserve seus negativos. É a sua história!”, questiona Alexandre do Carmo, jurista imagético e analista de impacto tecnológico. REFERÊNCIAS BIBILIOGRÁFICAS [1] LEGRAMANDI, Sabrina. https://www.estadao.com.br/cultura/artes/geracao-z-compra-cameras-analogicas-mas-descarta-negativos-entenda-interesse-por-revelar-filmes/ [2025] [2] MARGADONA, Laís Akemi. Nova fotografia analógica: a ressignificação da captura em filme na ecologia midiática contemporânea. [S.l.]: Universidade Estadual Paulista (Unesp), 27 jun. 2024. (https://hdl.handle.net/11449/256731)
[4] When online content disappears. Washington, D.C.: Pew Research Center, 2024. Disponível em: https://www.pewresearch.org/data-labs/2024/05/17/when-online-content-disappears/. Acesso em: 16 jun. 2026. [5] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 18911:2010: Imaging materials — Processed safety photographic films — Storage practices. Geneva: ISO, 2010.
[6] "Analogicas: Eternizar o Orgulho" https://www.ecarta.org.br/projetos/galeria-ecarta/analogicas-eternizar-o-orgulho/
[7] DE SOUZA, Ana Paula Silva. Câmera, filme e memória: a fotografia como documento de arquivo no Projeto Bixa Analógica. TCC de Arquivologia, 2025. https://repositorio.ufsm.br/handle/1/37488 [8] BESERRA, Marília Leoni. https://harpersbazaar.uol.com.br/bazaar-noiva/orgulho-em-foco-casamentos-lgbtqia-ganham-destaque-em-exposicao-analogica/



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