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Japão convive com analógica e digital; enquanto Brasil descarta orelhões

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    Bixa Analógica
  • 3 de ago.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Entenda o porquê não descartar conhecimento acumulado em tecnologia em tempos de emergência climática

Coexistência entre analógica e digital / foto digital: Lorenzo Scavone
Coexistência entre analógica e digital / foto digital: Lorenzo Scavone

Pode parecer risível alguém defender a existência de telefones públicos em um país que passa 9h13min diárias em frente a uma tela retangular de um telefone privado, ocupando o 2º lugar do ranking de países mais intoxicados eletronicamente por dispositivos digitais, perdendo apenas para a África do Sul [1]. Mas há outras realidades possíveis em que tecnologias analógicas e digitais coexistem entre si de forma mais saudável e harmônica, sem a lógica binária de que o progresso incorre em descartar o “velho” em nome da alegada “modernidade”. Há até quem confunda telefone de uso privado com telefone de uso público. Quanto o Brasil já perdeu com esse pensamento colonial? Ainda mais em um período em que o El Niño dá sinais de que pode ser apocalíptico. É como se passássemos a remover hidrantes porque ninguém nunca precisou usar. Soa ilógico e absurdo remover um equipamento de emergência apenas porque ninguém usa no presente momento. Há diversos exemplos internacionais de que tecnologias analógicas e digitais podem coexistir, adaptando o antigo ao contemporâneo, dentre elas: o Japão e a Austrália, sendo que o Japão ocupa o último lugar de exposição a telas digitais e a Austrália ocupa o 31º lugar. O Japão, em março de 2025, possuía 83 mil orelhões [2], sendo que 51.056, distribuídos em 25.011 locais de 776 municípios (NTT East) somados aos 40.306 na área da NTT West, os quais estão distribuídos entre telefones públicos comuns, telefones em estações, aeroportos, hospitais, centros comerciais; dentre outros locais públicos. Vale dizer que 73 mil telefones públicos japoneses estão enquadrados na categoria obrigatória. Ou seja, há 10 mil telefones públicos instalados para além do que se obriga por lei. A quantidade de telefones públicos japoneses equivale a um aparelho para cada 1.472 habitantes e um telefone a cada 4,5 km² do território nacional. Em média, há um telefone público a cada 4,5 km² no Japão, mesmo em um dos países com maior penetração de smartphones do mundo. Lembrando que o Japão é do tamanho do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e tais unidades da federação somadas possuíam apenas 206 orelhões em 2026 [3]. Isto é, o Japão possui cerca de 45 vezes mais telefones públicos por habitante do que RS e SC juntos, os dois estados tem 1,06 orelhões por 100 mil habitantes (um telefone para cada 94.660 habitantes). Um número discrepante para uma região que constantemente sofre com emergências climáticas que deixam cidades isoladas em termos de telecomunicação. Um outro exemplo de país que valoriza seus equipamentos é a Austrália, pois, apesar de ter apenas 13 mil telefones públicos, a sua população total é de 27,4 milhões. É dizer, a Austrália possui cerca de 15 vezes mais telefones públicos por habitante do que o Brasil.  Embora Brasil e Austrália tenham áreas semelhantes, a Austrália mantém aproximadamente o dobro da densidade territorial de telefones públicos. O uso é tão incentivado na Austrália que, além de políticas públicas para prevenção do suícidio, denúncias e usos em situações de emergências, dentre outras. Inclusive, em 2019/2020, em meio a incêndios florestais, a cidade de Narooma passou a depender do único telefone público instalado na cidade, formando filas e filas para o uso do aparelho, em que 972 ligações foram feitas na cabine telefônica, segundo informa a operadora local [4] Também surgiu um uso recreativo pelo jogo Payphone Tag, em que se faz uma ligação usando um código fornecido pelo aplicativo. Aquela cabine passa a pertencer ao jogador. Outro participante pode visitar o mesmo telefone e "tomar" o território. Quanto mais aparelhos capturados, maior a pontuação. E em vez de apenas acumular telefones, os jogadores são incentivados a formar triângulos ligando três telefones públicos diferentes. Quanto maior e mais eficiente a malha formada, maior a pontuação. O aplicativo transforma a cidade em um tabuleiro geográfico, em que as antigas cabines telefônicas passam a ser vértices de uma rede. Situações criativas que começaram a surgir após a ligação se tornar gratuita desde 2021, a ponto da operadora dar bônus para quem completar certas tarefas. [5] Diante de tantos argumentos favoráveis, quais seriam os argumentos que justificam a eliminação tecnológica de uma infraestrutura pública de comunicação? Seria legal os defensores da obsolêscencia tecnológica formularem seus argumentos para enriquecer o debate. Só não vale repetir a máxima de que “telefones públicos precisam ser eliminados porque todo mundo tem telefone privados”.

FONTES:

[1] 


 
 
 

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