Nuvem da Amazon sofre perda eterna de dados digitais após bombardeio

Atualizado: 6 de out.
E o mundo percebe a fragilidade das imagens digitais armazenadas em nuvens inflamáveis.

Após a morte do Aiatolá Ali Khamenei, o Irã retaliou empresas estadunidense com ataques militares, a prédios físicos, lotados de computadores, com o fim de danificar infraestruturas que armazenam memória digital, e que provocaram “danos” que “excederam o que nossos serviços regionais e multi-AZ foram projetados para suportar”, declarou a Amazon.
A declaração da Amazon se deu, em 15 de setembro de 2026, após 6 meses do bombardeio iraniano, em que atualiza sobre “a interrupção que afeta a região do Oriente Médio”, que chegaram a conclusão ao final de uma “avaliação minuciosa” de que não conseguiram “restaurar o acesso aos recursos e dados hospedados exclusivamente na Zona de Disponibilidade mec1-az2”. [1]
A empresa estadunidense não divulgou publicamente quantos arquivos foram destruídos, nem quantos clientes foram afetados com a destruição destes dados, muito menos de quantas imagens digitais desapareceram. Falta de transparência que levanta temores de um apagão semelhante ao filme Blade Runner que, após robôs rebeldes (replicantes) atacarem data centers, apenas fotografias analógicas sobreviveram ao blecaute digital.
Vale lembrar que a perda de dados digitais por destruição de data centers não é a 1ª vez que um data center é destruído e a memória digital perdida eternamente (vide o incêndio na OVH Cloud, data center francês que deu perda total de memória digital de 30 mil computadores) [2].
Tais perdas totais fazer lembrar a teoria da “Idade das Trevas Digitais”, formulada, em 1997, por Terry Kuni, no 63º Congresso Mundial de Bibliotecas e Informação da IFLA (Copenhage), em que o bibliotecário aponta impactos tecnológicos da digitalização da informação em meio a “euforia tecnológica” “em uma era eletrônica na qual mudança e velocidade são valorizadas mais do que conservação e longevidade”. [3]
Disto, aponta diversos fatos que embasam sua preocupação, como: a) obsolescência digital; b) excesso de informação digital; c) regimes restritivos de propriedade intelectual; e d) privatização do armazenamento de informação. E diz que, em sua visão, “estamos entrando em uma era na qual grande parte do que sabemos hoje, grande parte daquilo que é codificado e escrito eletronicamente, será perdida para sempre”.
E como solução para a longevidade dos arquivos digitais propõe: a) “criação de conhecimento” sobre preservacionismo digital; b) “triagem digital” com criação de “diretrizes diretrizes sobre o que pode e deve ser salvo”; c) “métodos híbridos” em que “imagens digitais de documentos não são substitutas da preservação em microfilme”; d) resolver problema “de múltiplas plataformas de hardware/software”; e) gestão de direitos e controle de acesso; e f) promover a importância da “preservação digital como bem público”.
Kuny também diz que “as coleções digitais facilitam o acesso, mas não facilitam a preservação”, pois um arquivo “ser digital significa ser efêmero”, pelo fato de o digital dar “maior ênfase ao aqui e agora do que ao longo prazo” e que as pessoas bibliotecárias e arquivistas que terão a missão de “garantir que algo dos dias intensos de nossa ‘revolução digital’ permaneça para as gerações futuras”.
A tese de Terry Kuny sobre o séc. XXI ser a “Era das Trevas Digitais” é debatida até os dias de hoje, e ganhou ampla repercussão quando uns dos criadores da internet e executivo do Google (Vint Cerf) citou a teoria ao dizer que “Formatos antigos de documentos que criamos ou apresentações podem não ser compatíveis com a última versão de um software porque a compatibilidade retroativa não é sempre confiável" [4] e Cerf conclui e “que mesmo que acumulemos vastos arquivos de conteúdo digital, não poderemos saber do que se trata".
O vice-presidente do Google completou dizendo que “a solução é tirar uma chapa em Raios-X do conteúdo, do app e do sistema operacional, com uma descrição da máquina na qual ele é reproduzido, e preservar isso por um longo período de tempo. Essa fotografia poderá recriar o passado no futuro".
E, no Brasil, desde o início da popularização das câmeras digitais, diversos brasileirs perderam suas fotos digitais em celulares roubados, CD perdidos, e até mesmo em contas digitais em plataformas que deixaram de existir, ou que baniram suas contas indevidamente.
Em 2026, em encontro de preservacionistas digitais na Bienal de São Paulo, Millard Schiler (Gestor de Acervo do IMS), diferenciou a preservação analógica da preservação digital, ao dizer que enquanto a primeira “preserva objetos” físicos, a segunda “preserva informações” e propôs o conceito de “resiliência digital” que seria a “capacidade contínua de uma instituição de manter aquilo que considera importante [...] mesmo diante de mudanças, falhas, perdas, rupturas”* na memória digital, pelo fato de ela exigir um acompanhamento contínuo, e não apenas a climatização adequada de um ambiente. [5]
A fala se deu ao lado de Tânia Rodrigues (Gerente de Informação e Digital da Fundação Itaú), a qual afirmou que preservação digital não é sinônimo de digitalização e as estratégias de preservação digital do Itaú diante das dificuldades inerentes ao tema, as quais foram abordadas anteriormente por Antonio Paulo Carretta (Gestor de Informação da Bienal de São Paulo), o qual apresentou exemplos históricos de diversas perdas digitais ocorridas ao longo da história da internet, incluindo páginas de jornais famosos. [5]
Para além de questões tecnicidades digitais, também há problemáticas jurídicas, basta ver a “Política de Contas Google Inativas” estar nos Termos de Uso que o usuário concordou ao submeter suas imagens digitais no Drive (e não há nenhuma legislação brasileira que regule especificamente o tema).
Traduzindo: hoje, as fotos digitais armazenadas no Drive podem ser apagadas permanentemente*, se a pessoa responsável não utilizar esta nuvem durante dois anos [5]. E estão sob jurisdição das leis estadunidenses (como o Cloud Act); e são supervisionadas pelo Gemini (IA do Google).
Onde você armazena sua memória? Vale a pena digitalizar tudo?
Referências Bibliográficas
[2] https://www.reuters.com/world/blaze-destroys-servers-europes-largest-cloud-services-firm-2021-03-10/
[4] https://classic.exame.com/tecnologia/pioneira-da-internet-alerta-para-idade-das-trevas-digital/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento
[5] https://www.youtube.com/watch?v=-g-N8ZulU2k II Encontro de Usuários do CollectiveAccess: dia 2 / Bienal de São Paulo)



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