Hoje faz 200 anos da 1ª fotografia permanente
- Alexandre do Carmo

- 9 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de jul.
a invenção que a humanidade delegou a função de ser um índicio probatório da realidade material hoje está ameaçada pela IA (em seu bicentenário)

A invenção de Niépce não foi o 1ª registro fotográfico do mundo, mas a primeira a se fixar, permanentemente, em uma superfície material. Pois, historicamente, houveram inúmeras imagens fotográficas efêmeras, as quais em pouquíssimo tempo sumiram. Ou seja, não tinham a capacidade de deixar um registro contínuo no espaço-tempo.
Thomas Wedgwood e Humphry Davy no início do século XIX já conseguiam gerar imagens em papel ou couro sensibilizado com nitrato de prata, mas eles não conseguiram impedir que a luz continuasse apagando a própria imagem. O grande enigma da época era encontrar um meio de interromper sua decomposição fotoquímica e estabilizá-la no tempo.
E Niépce conseguiu o feito de fixar a imagem com a mistura de elementos orgânicos e inorgânicos, sem que houvesse dissolução total da imagem, por meio de uma placa de estanho (metal) revestida de betume da judeia (derivado de petróleo), para eternizar por 200 anos a vista de sua janela, na zona rural francesa de Borgonha, em superfície material.
O problema é que a técnica, nomeada como heliografia, exigia uma exposição de mais de horas no sol. E por 13 anos não foi houve grandes avanços. Até que Niépce antes de morrer vendeu seus conhecimentos para Daguerre, o qual os utilizou para construir o seu daguerreótipo, a máquina fotográfica que a França patenteou como invenção nacional (no Parlamento francês).
E, assim, a França criou uma arma de guerra, em que quem detinha uma máquina fotográfica poderia registrar um recorte bidimensional de uma realidade tridimensional. E, com isto, contar a sua versão dos fatos por meio de uma imagem visual registrada em um objeto físico.
Foi assim que Malick Sidibé registrou a descolonização francesa do Mali, ao registrar a felicidade de seu povo com a libertação colonial. E foi assim que Lázaro Roberto, Walter Firmo, Lita Cerqueira, Zanele Muholi, Eustáquio Neves, dentre tantas pessoas retrataram a história negra por meio da fotografia, utilizando-se da tecnologia que, por contrato social, recebeu a função de ser um indício de materialidade (ainda que tenha muitas falhas).
E, ironicamente, no século XXI, a escassez de fotografias que se fixam em superfícies materiais é uma minoria dentre as 2,1 trilhões de fotografias registradas, as quais apenas 1,2% serão impressas em um papel (2023). Ou seja, a humanidade finalmente aprendeu a fixar a luz, mas passou a armazená-la majoritariamente em locais físicos dependentes de energia elétrica, em propriedades de terceiros. Há quem diga que a fotografia morreu, pois não há registro em superfície, tornando-se apenas uma imagem de código binário. Logo, deveria ser chamada de foto digital. Um mero dado digital passível de ter seus dados minerados (e “raspados”), para treinar uma IA a gerar imagens sintéticas idênticas a uma fotografia (por cálculos matemáticos). Hoje, por exemplo, já é possível criar uma senhora negra hiper-realista, via IA, para fazer críticas políticas (e manipular as eleições). É possível criar facilmente imagens de pessoas chorando após uma votação parlamentar. É possível criar uma imagem do Trump gritando com o Lula. É possível criar uma imagem de Lula e Janja segurando ovos de páscoa de ouro. Ou um vídeo de Flávio Bolsonaro propondo o fim do salário mínimo. É possível dar golpes por meio de deep fakes. E é possível até mesmo criar imagens pornográficas falsas. É possível criar um personagem em uma vídeochamada e fingir ser outra pessoa numa reunião. É possível enganar pessoas em aplicativos de relacionamento. É possível confundir a mente das pessoas e apodrecer o cérebro delas com tanta imagem sintética (ainda que tenha uma marca d'agua na imagem)
Tai fatos foram anunciados na exposição de arte “Analogicas: Eternizar o Orgulho” e na oficina “Realidade em Chamas”, no MIS-SP (e ninguém deu atenção). A crise de credibilidade das imagens digitais é real. O contrato social imagético, mesmo com todas as suas falhas, dá sinais que será reduzido às cinzas.
E o fotógrafo e jurista Alexandre do Carmo já alertou, no dia 1º de janeiro de 2026, que “sem regulação, as eleições de 2026 serão um laboratório da IA”. Afinal, a Realidade está em Chamas, e todas as certezas solidificadas se desmancham pelo ar como fuligem. Uma nova resolução óptica está por vir! Quais serão as cláusulas? Quem redigirá?




Comentários