CRÔNICA: O dia que digitalizaram a Defesa Civil durante o apocalipse dos orelhões
- Alexandre do Carmo

- 27 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: 2 de ago.
[ALERTA DE GATILHO PARA REFUGIADOS CLIMÁTICOS]
Teléfono mora em uma cidade pequena rodeada por rios e, em meio a chuvas torrenciais do El Niño, tudo está prestes a alagar e, de repente, a bateria do seu celular acaba. Segundos depois a Defesa Civil enviou alertas digitais em seu celular. Talvez até alertando sobre o fim da humanidade com pitadas de misantropia, mas Teléfono não recebeu a mensagem digital porque, bem na hora, a bateria do celular acabou.
Disto, Teléfono é pego de surpresa pelas águas subindo bem próxima a sua casa. Ele é tomado de súbito por sentimentos de desespero e medo, e vai na casa de seu vizinho. Ele recebeu o alerta digital, mas era um idoso sem alfabetização digital, e de mobilidade reduzida, e não entendeu muito bem o que fazer com aquela mensagem digital da Defesa Civil.
E, agora, a bateria dele também acabou (e a energia também).
A casa ainda não foi inundada. Mas está ilhada e incomunicável com as autoridades de socorro (ou com uma rede de apoio que possa te auxiliar). Ele passa a procurar telefones públicos para procurar ajuda, mas eles não existem mais. Retiraram eles porque disseram ser desnecessário um telefone público em tempos de telefonia privada.
E o orelhão? Obsoleto!
Sim, obsoleto. Qual o sentido de preservar um fóssil urbano que salvou tantas vidas por décadas? É tanto progresso. É tanta tecnologia. É tanta digitalização da vida que recursos materiais tornaram-se dispensáveis e obsoletos. Esqueceram-se de quando os orelhões salvavam vidas.
O efetivo humano treinado para socorrer vidas em emergências climáticas também tornou-se dispensável. A Defesa Civil, agora, depende em grande parte do voluntariado, e da boa vontade, de pessoas que desejam salvar vidas com suas lanchas. E, claro, da autoridade política que veste a camisa da DC em meio ao desastre (após digitalizar a Defesa Civil).



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