Apostas digitais batem recorde na Copa do Mundo de 2026
- Bixa Analógica

- 19 de jul.
- 3 min de leitura

Muito antes da existência de campeonatos de futebol, as apostas já eram populares na Europa. Nos séculos XVIII e XIX, ingleses apostavam, por exemplo, em corridas de cavalos e lutas de boxe. Com a criação do primeiro campeonato nacional organizado do mundo, a Football League, os bookmakers passaram naturalmente a aceitar apostas em partidas.
Foi nesse contexto que surgiram os bookmakers, pessoas que anotavam apostas e calculavam as odds (probabilidades). Nessa época, tudo era presencial (e em papel), e, com o tempo, a atividade passou a ser fortemente regulada (ou até mesmo proibida), ao passo que os Estados Nacionais criaram as famosas loterias esportivas para compensar a proibição das apostas privadas. [1]
Tudo mudou em 1994.
Antígua e Barbuda aprovou uma legislação permitindo licenças para cassinos e apostas digitais. E como a internet é uma rede global de computadores, abriu-se uma brecha legal, já que, em tese, as apostas estariam sendo realizadas no país caribenho, ainda que o apostador digital estivesse fisicamente em outro país, além de permitir que as apostas fossem feitas no conforto de seu próprio lar (e em seu computador).
E, assim, começaram a surgir as apostas que ocorrem durante as partidas, nascendo o conceito de live betting. As apostas ao vivo, basicamente, é um fenômeno no mundo das apostas em que uma partida de futebol em um evento com milhares de oportunidades de aposta, atualizadas em tempo real.
Para exemplificar a situação, imagine a hipótese em que aos 32 minutos do primeiro tempo, o apostador possa apostar se: a) haverá gol antes do intervalo (ou não); b) qual equipe terá o próximo escanteio c) haverá cartão nos próximos cinco minutos; d) quem marcará o próximo gol; dentre outras possibilidades [2]
E com a popularização dos smartphones, as apostas se tornaram mais intensas e compulsivas, pois agora o apostador pode apostar em qualquer lugar que quiser, seja na cama ao acordar. E até mesmo no banheiro. Mas também no trabalho. E por que não no hospital ou no carro? Afinal, todo lugar é lugar para apostar, já que o jogo está na tela do seu celular. E com este modelo de jogo que a Copa do Mundo de 2026 bateu recorde ao movimentar mais de US$ 60 bilhões
Disto, surge a ludopatia digital, (ou Transtorno do Jogo), dependência comportamental reconhecida pela OMS (CID 10 - F63.0) e que afeta milhões de pessoas no mundo. [3] Já que tem apostadores que chegam a passar 8 horas do dia apostando em seus celulares. [4]
Diante da epidemia de ludopatia digital, a Espanha editou o Real Decreto n.º 958/2020, em que se proíbe o patrocínio de bets em camisas de clubes, assim como o uso de atletas, celebridades e pessoas de notoriedade pública nestes anúncios. Além de vedar cláusulas contratuais que remuneram o anunciante com o dinheiro perdido dos novos clientes, sendo que a publicidade de apostas são permitidas apenas nos horários das 1h às 5h da manhã. [5]
O Brasil, com a popularização tardia dos smartphone, não se preparou às problemáticas digitais advindas desta tecnologia, em face do vazio regulatório existente no país. E, assim, as propagandas de bets dominaram o futebol brasileiro, em que 1 a cada 3 jogadores convocados tem ligações contratuais com bets. [6] A ponto do Neymar, no dia de sua convocação, divulgar a casa de apostas digital que o patrocina há 3 anos e 6 meses.
Vale dizer que 56,6% de quem aposta sente-se influenciado por propagandas com celebridades, de acordo com pesquisa do Procon-SP, enquanto 22 milhões de brasileiros já terem jogado pelo menos uma vez em bets. [7]
E o poder econômico das casas de apostas digitais atinge hoje 86,7% dos times brasileiros que são patrocinados por bets [8], sendo que 52,4% de apostadores já recorreram a empréstimos para apostar. [9] E o fotógrafo de futebol João Mário Prado vê com preocupação as “pessoas se endividando por apostas”.
E o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (MDB), iniciou o movimento de combate às bets ao proibir a propaganda de apostas digitais em espaços públicos cariocas pelo Decreto. No mesmo passo, o Senador Randolfe (PT) apresentou Projeto de Lei para proibir publis de bet em território nacional (PL 3563/2024), que segue parado no Senado Federal.
Fontes Bibliográficas
[1] David G. Schwartz, Roll the Bones: The History of Gambling (2006).



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