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Apagões elétricos podem inutilizar milhões de celulares.

Revista Analógica
2 de set.
11 min de leitura

“Em casos de emergência, [...] de catástrofes naturais, a rede de celular pode ficar indisponível.”, diz Luiz E. Acciari (Engenheiro de Automação e Controle - Unesp)

Fotografia Analógica: Alexandre Carmo
Fotografia Analógica: Alexandre Carmo

 

Nos últimos 10 anos, o Brasil passou por inúmeros apagões elétricos em diferentes unidades federativas, como o dramático blecaute no Amapá (2020), calamidade pública  que deixou a população amapaense por 22 dias consecutivos sem energia, em razão de um incêndio que atingiu a principal subestação de eletricidade da região. Em que o fogo se alastrar a ponto de destruir o transformador principal e danificou as unidades de reserva.


Do mesmo modo que o Rio de Janeiro (2026) e São Paulo (2025), passaram por apagões coletivos, com, respectivamente, 1,2 milhões de cariocas sem energia elétrica e mais de 4 milhões de paulistanos sem luz no ano passado. Tais apagões não se restringem aos episódios citados.O apagão é um pesadelo coletivo que o Brasil passa há mais de dez anos, e, em 2024, até mesmo queimadas florestais já causaram apagões em três estados (Acre, Rondônia e noroeste do Mato Grosso). Tais apagões coletivos trazem inúmeras consequências em comum: milhões de celulares inutilizados pela queda da energia elétrica. Isto é, uma coletividade de pessoas incomunicáveis, e ilhadas em seu universo particular, após seus telefones privados não estarem mais disponíveis para realizar chamadas emergenciais por estarem dependentes de apenas um meio de comunicação: o celular.


E não se está negando os benefícios de se ter um celular. É inegável que a massificação do uso da telefonia privada trouxe diversos avanços para o Brasil. Afinal, “o telefone privado é uma linha só sua, particular e que somente você tem acesso”, como explicado pelo engenheiro Luiz Eduardo Acciari.


Mas e quando ela falha? E quando o apagão for individual? E quando o apagão for apenas da sua tela? E quando o apagão do seu telefone privado te apresenta um problema ultrarreal no momento que você menos espera? Tipo… no meio de uma viagem, o carregador do seu celular quebra, em um local que você não conhece ninguém.


E, do nada, o aparelho, mais ultrafuturista do mundo, torna-se inútil num domingo em que nada está aberto, e as ruas estão desertas, e ermas, e o tempo avança para o calar de uma noite tempestuosa, no fim da reserva de seu hotel. E não tem nenhum telefone público “ultrapassado” à disposição na cidade. Um problema ultrapresente ignorado como hipótese pelos tomadores da decisão de destruir orelhões em sua totalidade até 2028.  


Pode parecer óbvio, mas é bom dizer às pessoas que tiveram suas mentes digitalizadas: “se o sinal do celular cair, a comunicação fica indisponível”, como explica Luiz Acciari, Engenheiro de Automação e Controle formado na Unesp, e mestrando em Engenharia Elétrica (Unesp); e, atualmente, trabalha “na área de automação e internet das coisas”.


O engenheiro complementa que existe “um conceito chamado disponibilidade” que é “quanto um meio fica disponível para ser utilizado” e compara com o fato que “o celular é um dispositivo que se acabar a bateria e não tiver como carregar, fica indisponível”. E que a disponibilidade da telecomunicação deve ser resiliente.Tal resiliência das telecomunicações trata-se de um sistema “estável” e que “não fica indisponível facilmente”. Por isso é importante, nas palavras de Acciari, entender que “tecnologias diferentes podem coexistir de forma complementar”, sem a visão binária de que para evoluirmos necessitamos eliminar as tecnologias antigas, aliando-as para servir a sociedade de forma eficiente. O engenheiro de automação e controle finaliza em sua análise técnica que “sempre é bom ter um sistema de emergência acessível e de alta disponibilidade, este é o papel atual do telefone público no século XXI” porque “garante uma comunicação com discrição para pessoas que não tem celular”, sem ter de ficar pedindo celular alheio para estranhos na rua .Este interesse tecnológico de Luiz Eduardo Acciari (como a telefonia fixa), adveio ao acompanhar as histórias de seu pai, Jorge Luiz Acciari, Engenheiro de Telecomunicações que “trabalhou no setor de pesquisa e desenvolvimento (CPqD) da Elebra nos projetos de centrais telefônicas Trópico R e Trópico RA”. VEJA A ENTREVISTA COMPLETA DO ENGENHEIRO LUIZ EDUARDO ACCIARI 1. Na Consulta Pública dos Orelhões da Anatel, você fez a contribuição 217600, na qual diz ser Engenheiro de Automação e Controle, "sendo especialista em telecomunicações, IoT,  controle industrial, telemetria", pode explicar melhor do que se trata o seu trabalho para o público leigo? O que ele tem a ver com orelhões?


Eng. Luiz Eduardo Acciari: Meu trabalho atual é na área de automação e internet das coisas. Projeto placas eletrônicas, realizo testes, integração de máquinas, arquiteto sistemas de controle de máquinas e envio de dados de sensores. Por exemplo, no processo de envio de dados de temperatura, levo em consideração todos os percursos analógicos e digitais no processo do sinal para melhor integridade, usando redes de comunicação industriais para ter maior resiliência.


Meu trabalho em si tem como correlação com os orelhões a característica de se criar um sistema de alta confiabilidade, que é projetado para operar em cenários com condições climáticas ruins, como água e poeira. Algo que os engenheiros dos orelhões sempre tiveram que levar em conta no território brasileiro. Isso é um ponto de correlação entre tecnologia antiga e tecnologia nova que gosto de buscar. Pois atualmente a confiabilidade não é tão levada em conta em projetos de outras modalidades de telefones e terminais de comunicação de acesso público (isso quando existem e saem do papel, raros casos). Portanto esse ponto o orelhão cumpre  bem e me inspira como engenheiro a construir sistemas robustos e focados na experiência do usuário. E é sempre interessante para minha visão de pesquisa e desenvolvimento estudos voltados para tecnologias antigas bem feitas de modo a projetar soluções confiáveis inspiradas no antigo. Pois uma coisa pessoal minha é que tecnologias diferentes podem coexistir de forma complementar, principalmente em cenários que necessitam de alta confiabilidade que é uma classificação para sistemas que não podem falhar, pois existem processos dependentes da performance de tais sistemas. Em suma, sistemas que não quebram toda hora, que o serviço funcione, que o sinal não caia.


Neste caso também tenho uma inspiração familiar. Meu pai, Jorge Luiz Acciari, é engenheiro de telecomunicações, No caso, meu pai trabalhou no setor de pesquisa e desenvolvimento (CPqD) da Elebra nos projetos de centrais telefônicas Trópico R e Trópico RA, que realizavam as comunicações entre telefones fixos em orelhões quando discávamos ("discar" vem do disco do telefone). Quando eu era criança, ele acudia centrais telefônicas com os mais variados defeitos. Ouvindo as histórias, obtive um interesse e comecei a pesquisar sobre telefonia fixa, como funcionava. Como aquele aparelhinho podia transmitir a voz do Oiapoque ao Chuí.


2. Quais as diferenças técnicas entre o telefone privado (celular) e o telefone público? E as modalidades tecnológicas de telefonia (fixo, voip, satélite e fibra óptica)? Aponte vantagens e desvantagens.


Eng. Luiz Eduardo Acciari: O telefone privado é uma linha só sua, particular e que somente você tem acesso. No atual modelo do mercado, é necessário que você compre aparelho e mantenha pagando uma assinatura mensal (valor considerável) para usar.

No caso do celular, também paga-se a energia elétrica para carregar a bateria, bem como manutenções. Deste modo é um aparelho seu em que a responsabilidade pela manutenção é exclusivamente sua.

É uma ótima ferramenta, mas não é todo mundo que tem acesso ao aparelho funcional (para padrões de uso atuais) e a manutenção. É um custo alto e normalmente se você abordar alguém na rua, as chances de o celular estar "lento", com bateria acabando são altas, desta forma nem sempre estão disponíveis ou funcionais em relação a consequências de custo.


Já o telefone público é um tipo de telefone que deve ser acessível para todo mundo usar. No Brasil muitos deles foram instalados nas ruas em estruturas chamadas orelhões para oferecer isolamento acústico e proteção, graças ao projeto de sua criadora, a arquiteta Chu Ming, que estudou acústica e projetou um sistema que permitia isolar de forma simples e eficiênte os barulhos no entorno para as pessoas ouvirem bem o som da pessoa do outro lado da linha. Bem como também protegem quem usa. Os orelhões também eram usados para propaganda. É algo que virou cultural nosso.


Atualmente as linhas públicas que ainda estão disponíveis permitem também ligações a cobrar (onde quem recebe a ligação paga), bem como também permitem ligações pagas (com cartão telefônico, que em algumas bancas ainda se achava para vender).


Um ponto adicional que gostaria de destacar é que o tronco de linhas telefônicas ainda existe e em casa fazemos questão de manter a linha fixa direto da rua, sem usar aparelhos que precisam de energia, como usado em telefones fixos VoIP oferecidos pela Claro e Vivo.  Para casos de emergência, sem depender de sinal de celular, do provedor de VoIP e de energia elétrica é uma alternativa que auxilia na comunicação. Por exemplo, uma vez acabou a energia e caiu o sinal dos celulares, e o bom e velho telefone fixo ainda estava ativo. Como manter uma linha fixa em casa tem um custo alto, outra alternativa para emergências é o orelhão, pois ele compartilha a mesma tecnologia e infraestrutura robusta do telefone fixo, a linha tronco de pares trançados. É uma infraestrutura que todos os assinantes da TELESP (quando era uma empresa pública) pagaram por meio do preço alto que se comprava a linha telefônica. Tal estrutura foi "doada" à empresa adquirente da TELESP.


Atualmente, em minha cidade (Sorocaba/SP) os orelhões desapareceram da minha cidade de um dia pro outro durante a pandemia. Do mesmo modo, o serviço de telefonia fixa está sendo cada vez pior pela empresa que adquiriu a TELESP, haja vista que a nossa linha fixa que pagamos parou de funcionar após um e-mail mal explicado e nada informativo de que estavam migrando as tecnologias (mas a conta ainda cai e a cobrança também). Haja vista que o único intuito de manter a linha telefônica é de usar a infraestrutura sólida de tronco telefônico da rua.


O tronco telefônico nada mais é do que um cabo com vários pares de fios de telefones de várias casas, orelhões e comércios. Cada cabo vai até um armário de manutenção e desse armário vai para a central telefônica, que é uma estrutura que provém a energia. Normalmente, quando bem cuidada é uma estrutura que resiste à diversas intempéries climáticas, pois não depende de comunicações sem fio, em sua maioria.


3. O que você entende por resiliência das telecomunicações?


Eng. Luiz Eduardo Acciari: O conceito de resiliência é algo que resiste em meio à condições adversas. Por exemplo, um hidrante que continua funcionando, mesmo quando não há presença de energia elétrica, é um sistema resiliente. Um sistema que não depende de muitas variáveis (que podem dar errado) para parar de funcionar. Normalmente é algo que só depende de uma condição de funcionamento e resiste à variações de intempéries externas (como ventos, chuvas, poeira, barro).


Um sistema resiliente é como um bloco de madeira pequeno, simples, apoiado sobre outro bloco, enquanto que um sistema não resiliente é como um bloco de madeira apoiado sobre quatro blocos, onde se um bloco for retirado, o bloco de cima fica instável  e cai. Em suma, o sistema resiliente é algo que é estável e não fica indisponível facilmente.


Um exemplo de sistema resiliente é o hidrante, que depende somente da pressão da água para funcionar. Enquanto que um sistema não resiliente como o acesso a um site, depende de energia, link (conexão) com um provedor e máquina funcional por parte de quem acessa, enquanto que do lado do servidor do site depende também de energia, link, funcionamento da máquina do outro lado da conexão. Percebe? Um sistema resiliente precisa de menos fatores para continuar funcionando.


Neste caso, se formos analisar a classificação de resiliência, o telefone público é um sistema que necessita de manutenção da empresa provedora do serviço, mas não precisa de constante manutenção do usuário. Já o celular depende da empresa para prover o sinal, bem como do usuário para poder funcionar corretamente. Necessita do usuário carregar a bateria na energia, pagar conta ao provedor de serviço, estar na área de cobertura. 

Deste modo, a telefonia pública tem sua complexidade, mas pode atuar como backup para sistemas que dependem da manutenção do usuário


Um exemplo notável de resiliência nas telecomunicações são os radioamadores. Pois quando há alguma catástrofe que afeta a população, são os radioamadores que se reúnem para repassar informações de resgate às equipes de bombeiros, paramédicos, policiais e comunidade quando não há sinal ou outras tecnologias disponíveis. Deste modo atuam de modo nobre como um elo de backup para as telecomunicações, principalmente quando mais precisamos.



4. Uma das justificativas para a eliminação de 100% dos telefones públicos é que "hoje todo mundo tem celular e ninguém mais usa orelhão". Mas ao considerar que, em julho de 2026, a Light informou que as ventanias do El Niño causaram um apagão que afetou 1,1 milhões de cariocas (sendo que muitas unidades ficaram por mais de 48 horas sem energia). Qual infraestrutura de telecomunicação ideal para evitar que as pessoas fiquem incomunicáveis em emergências climáticas?


Eng. Luiz Eduardo Acciari: A melhor infraestrutura é a que estiver disponível. Se os orelhões são ligados ao tronco telefônico e não dependem de energia residencial, são meios de comunicação que podem auxiliar. No caso do El Noño poucas pessoas conseguiram carregar o celular. Atualmente poucos modelos têm bateria que dura mais de 48 h. Além disso, há um outro problema também. Atualmente muitos serviços só são acessíveis por celular. O que não garante uma boa confiabilidade, pois deve ser oferecida uma alternativa para quando o celular não funciona.


Esta justificativa de eliminação invisibiliza pessoas que não tem telefone celular. Bem como também deixa as pessoas que estão sem carga na bateria em uma situação vulnerável de ter que pedir um celular emprestado para alguém. Num local com roubos e violência, quem vai emprestar um celular com o risco de ser roubado? Ninguém.

É uma frase desconexa da realidade urbana e rural brasileira.


5. Outro ponto bastante debatido é que para os orelhões sobreviverem seria necessário substituir 100% da telefonia fixa pela fibra óptica, a fim de que os telefones públicos tornem-se "orelhões digitais". O que você pensa desta atualização?


Eng. Luiz Eduardo Acciari: É interessante, pois a manutenção fica menor. mas por outro lado um tronco telefônico tem muito mais pares de cabos do que uma fibra óptica. Se uma fibra óptica quebra, a linha de todo mundo que depende da fibra cai. Já no tronco telefônico temos cabos-tronco com 100 pares.  Se um romper, o par do vizinho está funcionando.


Fibra óptica é boa! É uma alternativa muito boa e moderna, mas temos que levar em consideração como a instalação é feita. Pois atualmente os orelhões usam uma infraestrutura já existente de cabos-tronco que em muitos lugares já existe. Essa infraestrutura é enterrada em muitos casos. Como é enterrada é menos suscetível a um caminhão passar e quebrar o cabo, ou a um ato de vandalismo cortar a linha. Se os cabos de fibra ótica forem feitos enterrados, creio que seria uma ótima alternativa, pois cabos de fibra óptica são resistentes à raios, não conduzem eletricidade, tem uma alta taxa de transmissão de dados.


Atualmente o cabo tronco vai até a central, na central temos a fibra óptica. No caso de fibra indo até o telefone,é melhor ainda. até porque permite passar mais dados de comunicação aos orelhões, permitindo-os a serem utilizados como terminais de dados. É uma alternativa boa, mas deve ser bem planejada junto à população bem como executada de forma concreta. Pois até agora só arrancaram os orelhões e não colocaram nada no lugar. Retrofit de orelhões é algo que deve ser pensado, mas com muita cautela e levando em conta as necessidades da população e resiliência.


Em suma, concluo que as tecnologias podem andar uma do lado da outra, o cabo tronco ainda pode ser utilizado como backup. Pois sempre é bom termos mais de um meio de comunicação para ter um meio mais resiliente.


6. Qual a importância telecomunicacional dos orelhões no século XXI?


Eng. Luiz Eduardo Acciari: Tem um conceito chamado disponibilidade. É o quanto um meio fica disponível para ser utilizado. O celular é um dispositivo que se acabar a bateria e não tiver como carregar, fica indisponível. Também se o sinal do celular cair, a comunicação fica indisponível.


Em casos de emergência, tanto em casos de catástrofes naturais, a rede de celular pode ficar indisponível. Quanto em casos de segurança pública (localização, avisar algo urgente para alguém, denúncias) quando um aparelho celular descarregado te deixa incomunicável.

Quando acaba a bateria, não quero incomodar alguém e pedir o telefone da pessoa emprestado. Ou em locais perigosos, não quero usar o celular em público.


Por isso, sempre é bom ter um sistema de emergência acessível e de alta disponibilidade, este é o papel atual do telefone público no século XXI. Além disso, garante uma comunicação com discrição para pessoas que não tem celular, não deixando-as invisibilizadas, garantindo a inclusão social dessas pessoas dentro das comunicações, o que é um papel nobre que as telecomunicações podem ajudar.



 
 
 

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