Lázaro Roberto fotografava a memória da Bahia para o futuro
- Alexandre do Carmo
- há 3 dias
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Lázaro Roberto precisava estar vivo enquanto "fotografava para o futuro" a história afro-baiana com suas mais de 30 mil películas analógicas

O menino baiano iniciado na fotografia por um padre italiano (Paulo Maria Tonucci), hoje tem 68 anos, mas precisou, primeiro, passar por um período de 40 anos de invisibilidade para receber atenção de grandes instituições que validam alguém como “grande fotógrafo”.
Foi durante esse período de invisibilidade que Lázaro Roberto percebeu sua missão: ser o guardião da memória afro-baiana. Assim que ele percebeu que ele “fotografava para o futuro” porque “ninguém me chamava para nada” e que “ninguém me percebia”, lamenta o fotógrafo sobre sua trajetória na abertura da exposição do Zumvi no IMS (em São Paulo).
Ele assumiu esse compromisso com o futuro com muita dedicação, passando sua vida entre a gráfica gerenciada pelo sacerdote católico, e, durante o tempo livre, derivas fotográficas por feiras, festas populares, e manifestações políticas da Bahia.
E à noite dormia ao lado das memórias físicas eternizadas em milhares de películas analógicas. Detalhe: fotografava sem ver as imagens dos negativos fotográficos. Apenas anotava onde foram registradas, pois não tinha dinheiro para pagar a revelação.
Em 1990, faz um curso no Senac para fazer a revelação por conta própria, momento em que conhece Aldemar Marques, outro fotógrafo negro, e, posteriormente, convidam Raimundo Monteiro para formarem um coletivo de fotógrafos negros. Assim nasce o Zumvi Arquivo Fotográfico. (Zum = zoom + vi = olhar fotográfico).
Em 1995, o projeto de Lázaro quase morreu. “A fotografia era uma arte cara”, e não recebia apoio remunerado de nenhuma instituição para a sua continuidade para um trabalho que chegava a custar R$ 4322,14, segundo orçamento exposto no 7º andar do IMS (valores convertidos pela calculadora do Banco Central).
O projeto reviveu definitivamente em 2013, após seu sobrinho historiador (Zezão) iniciar a “institucionalização”* do Zumvi Arquivo Afrofotográfico. “Pô, esse cara é tão conhecido, mas ninguém chama ele para nada?”, questionou José Carlos Ferreira após ouvir diversos elogios sobre o trabalho de seu tio, mas perceber sua falta de reconhecimento.
Hoje Lázaro Roberto expõe junto das sete pessoas fotógrafas que fundaram o Zumvi Arquivo Fotográfico no IMS-SP, no 7º e 8º andar do prédio na Avenida Paulista, 2424. Há 400 fotografias analógicas registradas por Lázaro Roberto, Aldemar Marques, Raimundo Monteiro, Meire Cazumbá, Gerimias Mendes, Rogério Santos e Jônatas Conceição.
Muito além de uma história bonita de superação, este é um retrato de um Brasil que apaga a genialidade das pessoas negras (subestimando-as). Quantos talentos já desistiram da fotografia por serem invisibilizados? Quantas pessoas negras geniais já foram invisibilidade, enquanto apenas pessoas brancas ganham destaque?
Lázaro chega a fazer um questionamento sobre seu trabalho na Feira de São Joaquim que nunca conseguiu fazer um fotolivro sequer acerca, mas que “chega um outro fotógrafo [branco] e parece que descobriu a pólvora”. E completa “nome de fotógrafos brancos todo mundo sabe, mas pergunta o nome de fotógrafos negros. Ninguém sabe.”
Que a exposição de Zumvi no IMS-SP abram portas para que injustiças históricas como essa nunca mais aconteça.